QUANTIDADE DE SÓDIO NOS SALGADINHOS.

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QUANTIDADE DE SÓDIO NOS SALGADINHOS.

CATEGORIA: NUTRIÇÃO

(fonte da Revista Vida e Saúde)

 

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INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, os hábitos alimentares da população brasileira foram marcados por consideráveis mudanças, especialmente envolvendo a substituição de alimentos caseiros e naturais por alimentos industrializados1. A população brasileira apresenta atualmente um padrão alimentar rico em sal, açúcar e gorduras2, e o consumo de sódio acima das recomendações tem sido observado também em outros países, tanto em crianças como em adultos3,4,5.

Salgadinhos industrializados estão muito presentes no consumo alimentar da sociedade atual6. Tanto o número de porções quanto de situações em que este tipo de alimento integra a dieta de crianças e adultos tem registrado elevação3,4,6. Nos Estados Unidos, observou-se em crianças tendência de aumento no consumo de salgadinhos industrializados para três ocasiões ao longo do dia, e mais de 27% das calorias diárias estão vindo deste tipo de lanche3. No Brasil, a inclusão de salgadinhos industrializados tem sido observada precocemente na alimentação de crianças7. Na infância, o aumento do consumo de salgadinhos por dia coincide com um declínio na ingestão das três refeições principais3. Em adultos, a prevalência do consumo de salgadinhos na dieta aumentou de 71% para 97% nos Estados Unidos, entre 2003 e 20064.

O elevado consumo de sódio na dieta é um dos fatores associados ao desenvolvimento precoce de doenças crônicas não transmissíveis e cardiovasculares8. Considerando o contínuo aumento deste mineral no consumo alimentar das populações, em especial a brasileira, o objetivo deste estudo foi identificar o teor de sódio em salgadinhos industrializados e compará-lo com suas recomendações para consumo diário.

 

MÉTODOS

Foi realizado estudo transversal analítico em amostra de conveniência, composta de 10 marcas de salgadinhos industrializados. As marcas escolhidas foram as de maior frequência em estabelecimentos de médio e grande porte que comercializavam alimentos na região sul do município de São Paulo/SP e a coleta dos dados ocorreu entre fevereiro e março de 2012. Para análise e apresentação dos resultados, os produtos foram identificados por números, de 1 a 10.

As variáveis consideradas foram preço, conteúdo total de produto informado na embalagem, em gramas, e informações nutricionais obrigatórias apresentadas na embalagem. Das informações nutricionais, foram considerados a quantidade do produto por porção, em gramas (g), de sódio por porção, em miligramas (mg), e o percentual de valor diário recomendado (%VD) para sódio.

O conteúdo total de produto por embalagem, assim como o tamanho da porção, era diferente entre as marcas em estudo. Para permitir a comparação dos dados de sódio e %VD, a porção foi padronizada em 25g, que era o valor mais frequente na maioria das marcas (n=7). Para análise do teor de sódio e seu respectivo %VD por porção, a quantidade apresentada na informação nutricional foi convertida para a porção padronizada para as marcas que mencionavam valor diferente de 25g. Considerando que os consumidores podem consumir toda a quantidade de produto de uma embalagem ao invés de somente a quantidade da porção arbitrada pelo fabricante, foi calculado teor de sódio para o conteúdo de total da embalagem a partir dos valores apresentados nas informações nutricionais de cada marca. Os resultados das análises, de %VD e de teor de sódio por porção e por embalagem, foram comparados entre os produtos em estudo.

O teor de sódio dos produtos, por conteúdo total da embalagem e por porção de 25g, foi comparado com seus requerimentos para consumo diário, considerando ingestão adequada (AI) e nível de ingestão máximo tolerável (UL)9, apresentados no quadro 1. Partindo do princípio de que o grupo consumidor potencial desse tipo de alimento envolve tanto crianças como adultos, foram considerados os requerimentos de AI e UL para as faixas etárias de 4 a 8 e de 9 a 50 anos de idade.

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Quadro 1 – Requerimentos para consumo diário de sódio, conforme faixa etária (AI e UL).
AI* Sódio (mg/dia)
4 a 8 anos (homens e mulheres) 1,2
9 a 50 anos (homens e mulheres) 1,5
UL* Sódio (mg/dia)
4 a 8 anos (homens e mulheres) 1,9
9 a 50 anos (homens e mulheres) 2,3
*Institute of Medicine. Dietary Reference Intakes for Water, Potassium, Sodium, Chloride, and Sulfate. Washington, DC: The National Academy of Sciences Press, 2004.

 

A relação entre preço e teor de sódio dos produtos em estudo foi analisada através do teste de correlação de Pearson. Para classificar os resultados do teste, foi considerada correlação fraca para valores de 0,1 a 0,3, moderada para 0,4 a 0,6 e forte para valores de 0,7 a 1,010. Considerou-se ainda correlação positiva para valores maiores que 0 e correlação negativa para valores menores que 0. Foram calculados média±desvio padrão (DP) e coeficiente de variação (CV) para preço, sódio por porção e por conteúdo total da embalagem. O CV foi classificado como baixo quando os valores obtidos foram menores do que 10%; médio, quando entre 10% e 20%; alto, quando entre 20% e 30%; e muito alto, quando maiores do que 30%11.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O preço médio dos produtos em análise foi R$2,08±0,97 e o CV foi classificado como muito alto (47%). O resultado do cálculo do coeficiente de correlação de Pearson para relacionar preço e teor de sódio por embalagem foi 0,2, o que indicou correlação fraca, não sendo observada relação significante entre preço e teor de sódio nos produtos (Tabela 1). Os resultados do estudo apresentaram uma variabilidade de preço muito alta entre os produtos. Esse resultado coloca os salgadinhos industrializados como uma opção de alimento de fácil acesso a pessoas de todas as classes sociais quando considerando o fator preço. Estudo realizado em creches públicas do município de São Paulo/SP, que avaliou a introdução de produtos industrializados na alimentação das crianças e sua relação com a escolaridade materna, concluiu que houve associação significante entre a introdução precoce dos salgadinhos e a baixa renda familiar7. Os mesmos autores observaram ainda que o risco de introdução precoce desse produto era cerca de duas vezes maior entre famílias com renda inferior a um salário mínimo, quando comparadas com as crianças de famílias que possuíam renda superior.

O teor médio de sódio por porção nas amostras foi de 258,8±159,3mg, e o CV foi considerado muito alto (61,5%). A média de sódio por conteúdo total na embalagem foi 657,0±608,5mg, e o CV foi 92,6%, classificado como muito alto. O %VD por porção foi maior nos produtos 4, 8 e 9, atingindo 15%, 26% e 15%, respectivamente. Todos os produtos continham mais que uma porção de alimento em sua embalagem. Os produtos identificados como 3, 4 e 8 apresentaram entre 2,5 a 4,5 porções por embalagem (Tabela 1). Os produtos em estudo apresentaram grande variabilidade nos teores de sódio por porção e conteúdo total da embalagem. Alguns produtos apresentaram teores de sódio muito elevados, tanto por porção como por conteúdo da embalagem. Isto permite inferir que a marca de salgadinho escolhida, juntamente com a quantidade de produto consumida, determinará o teor de sódio ingerido pelos consumidores, e que isto difere de forma considerável entre as marcas analisadas. Dickinson e Havas12 concluíram que os níveis de sódio variam muito entre as diversas categorias e marcas do mesmo produto, indicando que os fabricantes poderiam reduzir a quantidade de sódio sem comprometer a comercialização dos produto. Estudo que analisou os rótulos de 100 produtos industrializados de diferentes marcas de várias categorias como doces, salgados, congelados, bebidas e molhos de tomate, relatou que 77% dos alimentos continham excesso de sódio em sua composição, e os salgadinhos destacaram-se por apresentar elevado teor deste mineral em todas as marcas13.

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Tabela 1 – Distribuição das marcas dos produtos em estudo por preço, quantidade por embalagem e por porção padronizada (25g), teores de sódio e % VD.
Produto Preço (R$) Conteúdo total da embalagem (g) Sódio/ porção (mg) Sódio/ embalagem (mg) Sódio/ % VD porção (%)
1 2,49 55 150 330 6
2 0,8 50 271 542 11
3 1,1 70 284 795,2 12
4 2,41 50 362 724 15
5 3,8 40 130 208 5,4
6 2,02 50 125 250 5
7 3,26 50 170 340 7
8 2,34 90 626 2253,6 26
9 1,09 60 351 842,4 15
10 1,49 60 119 285,6 5
Média 2,08 258,8 657
DP* 0,97 159,3 608,5
CV** (%) 47 61,5 92,6
*DP: desvio padrão
**CV: Coeficiente de Variação

 

Os salgadinhos industrializados estão muito presentes na alimentação contemporânea, principalmente entre crianças e adolescentes, e o seu consumo vem aumentando em todas as faixas etárias3. Geralmente são consumidos entre as refeições, e com frequência substituindo-as4. Essas informações indicam uma significativa preferência da população por esse tipo de produto. Estudo realizado com alunos entre 10 e 12 anos de escola pública demonstrou que eles consumiam com muita frequência alimentos com elevado teor de sódio, especialmente os salgadinhos industrializados14. Pesquisa realizada em um centro de referência no atendimento infantil em Balneário Camboriú/SC reafirmou esses resultados quando demonstrou que entre as crianças que consumiam regularmente alimentos ricos em sódio, 22,5% consumiam salgadinhos industrializados15. Todos estes dados alinham-se com os resultados de pesquisa que concluiu que o consumo de sódio pela população brasileira tem excedido em mais de duas vezes o limite recomendado para a ingestão, em todas as classes sociais e regiões do país, e o sal de cozinha é apontado como o principal responsável por esta ingestão elevada16.

Observa-se, na Figura 1, que o teor de sódio por porção não atingiu os requerimentos para consumo diário em ambas as faixas etárias. Quando comparado o teor de sódio do conteúdo total da embalagem com os requerimentos para consumo diário, um dos produtos ultrapassou a AI para ambas as faixas etárias em estudo. Os produtos identificados pelos números 3, 4 e 8 aproximaram-se do valor de AI recomendado para a faixa etária de 4 a 8 anos por porção. É relevante mencionar que não foram considerados o número de porções consumidas, o que pode comumente consistir no conteúdo total da embalagem do produto ao invés de apenas uma porção. Estudo realizado nos Estados Unidos avaliou os padrões e tendências nos tamanhos de porções alimentares e concluiu que, entre 1977 e 1996, houve aumento significativo no tamanho das porções de diversas categorias de alimentos, e no período de 1994 a 1998 houve aumento no tamanho de porções de alimentos como os salgadinhos17. O mesmo estudo enfatizou que em determinados estabelecimentos comerciais são oferecidos produtos com porções muito maiores por um custo menor. Assim, em alguns casos é menos dispendioso economicamente para o consumidor consumir porções maiores. Isto pode induzir o consumidor à escolha alimentar pautada pelo fator preço, resultando num excesso na ingestão de determinados alimentos e nutrientes, como o sódio.

Na Figura 2, observa-se que o teor de sódio por porção de todos os produtos ficou abaixo dos valores de UL. Ao analisar o conteúdo total da embalagem dos produtos, o produto de número 8 apresentou teor elevado de sódio, ultrapassando o valor dos requerimentos de UL para a faixa etária de 4 a 8 anos e aproximando-se do valor de UL para a faixa etária de 9 a 50 anos. Considerando que é comum o consumo do conteúdo total do produto de uma embalagem, o teor de sódio dos salgadinhos torna-se ainda mais relevante. Dickinson e Havas12 afirmaram que a maioria da população mundial consome entre 2,3 a 4,6 g de sódio por dia. Estudo realizado nos Estados Unidos avaliou o comportamento alimentar de adultos norte-americanos e os resultados mostraram que a prevalência no consumo de salgadinhos aumentou significativamente de 71% a 97% entre 2003 e 2006, contribuindo para o aumento na ingestão de sódio4.

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Os resultados deste estudo demonstraram que o teor de sódio apresentado no conteúdo total da embalagem de uma das marcas em análise excedeu os requerimentos de UL de sódio para a faixa etária de 4 a 8 anos e aproximou-se do valor de UL para a faixa etária de 9 a 50 anos. Assim, ao considerar a ingestão do conteúdo total de uma embalagem desse produto, associado às demais refeições realizadas ao longo do dia, o teor sódio ingerido pode exceder os requerimentos diários de UL para ambas as faixas etárias. Estudo realizado na Nova Zelândia, que avaliou a quantidade de alguns minerais de 121 tipos de alimentos mais consumidos pela população, como regionais, processados, salgadinhos, biscoitos e bebidas, constatou que os níveis de sódio excederam os requerimentos de AI para todos os grupos de idade e sexo, excedendo também os valores de UL para crianças e adultos com idade até 25 anos18. Estudo realizado na Bélgica utilizou o mesmo parâmetro e analisou o inquérito dietético de pré-escolares, identificando as principais fontes alimentares e a ingestão de sódio, e observou que o consumo deste mineral ultrapassou os requerimentos de UL em 57% das crianças de 4 anos de idade5.

Instruir a população quanto ao que comer ou não é insuficiente, e uma questão igualmente importante é a quantidade do alimento a ser ingerida17. Entretanto, para que haja mudança no comportamento da população quanto ao consumo de sódio, todos os profissionais da saúde, principalmente os nutricionistas, devem empenhar esforços na orientação dos indivíduos.

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CONCLUSÃO

O teor de sódio apresentou grande variabilidade entre as marcas dos produtos em estudo. Quando considerada a porção, o teor de sódio apresentado nos produtos não excedeu os requerimentos de AI e UL para as faixas etárias em estudo. No conteúdo total da embalagem, o teor de sódio ultrapassou os requerimentos de AI em um produto para ambas as faixas etárias consideradas, e de UL na faixa etária de 4 a 8 anos. Observou-se ainda grande variabilidade nos preços dos produtos. Quanto à comparação entre preço e teor de sódio nos produtos, não foi observada correlação significativa.

A partir dos resultados obtidos e da discussão apresentada, sugere-se que ações sejam realizadas no sentido de que o consumo de sódio mantenha-se dentro dos requerimentos pré-estabelecidos, dadas as evidências que comprovam que a ingestão em excesso desse mineral poderá trazer à saúde consequências como o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis. Sugere-se ainda que estas ações, envolvendo tanto profissionais da saúde como autoridades e órgãos governamentais competentes, incluam o desenvolvimento e a implantação de medidas educativas direcionadas à população, voltadas à redução do consumo de alimentos processados ricos em sal, e à indústria de alimentos, direcionadas à redução da quantidade de sal adicionada aos alimentos industrializados.

 

REFERÊNCIAS

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Dalvinea Carvalho Santana; Ester Dias Bittencourt; Márcia Lopes Weber (Curso de Nutrição do Centro Universitário Adventista de São Paulo)

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