Municípios do Entorno se preparam para a vacinação contra covid-19

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Goiás divulgou parte da estratégia operacional da campanha ao Correio e definiu limite de salas de vacina para os municípios de acordo com o tamanho da população de cada cidade. Minas Gerais começou a distribuição de seringas na terça-feira

JM
Jéssica Moura
AI
Ana Isabel Mansur
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Os municípios do Entorno e o Distrito Federal ainda não sabem quando e nem quantas doses vão receber da vacina, mas se preparam como podem para a campanha de imunização, que vai seguir os direcionamentos do planejamento federal, por meio do Ministério da Saúde. Além da falta de informações, outro desafio logístico da região é a população flutuante, quando o morador de uma cidade trabalha em outra.

Consultado pelo Correio na segunda-feira, o governo de Goiás apresentou algumas diretrizes iniciais, segundo as quais as prefeituras vão se organizar, e afirmou, em nota oficial, que “o plano será publicado em breve”. A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) divulgou o Plano de contingência para a vacinação contra covid-19 em 25 de novembro, com estratégia dividida em pré-campanha, campanha e pós-campanha.

As unidades municipais de saúde da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal (Ride) que o Correio consultou, no entanto, esperam um alinhamento oficial e direto junto às secretarias de cada cidade. A Ride tem 4,62 milhões de habitantes, dos quais 65,15% (3,01 milhões) estão na capital federal.

Mesmo sem datas nem quantidades definidas, os municípios da Ride estão buscando se adiantar em algumas questões de infraestrutura e logística. O planejamento adequado, no entanto, não pode ser feito sem definições das secretarias estaduais, que, por sua vez, dependem de decisões do Ministério da Saúde.

O Correio tentou contato com os órgãos responsáveis pela Saúde em todos os 34 municípios que fazem parte da Ride. Apenas os que enviaram posicionamento, até o fechamento desta edição, serão mencionados pela reportagem.

Expectativas

Pelo planejamento apresentado pela Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO), as cidades vão abrir salas de vacinação em quantidade proporcional ao número de habitantes. Assim, municípios com mais de 500 mil habitantes podem abrir até oito salas de vacina; as que têm entre 200 mil e 500 mil, até cinco salas; e as com até 200 mil habitantes, até três salas.

O plano preliminar goiano prevê que as doses serão aplicadas todos os dias, e as salas de vacinação vão funcionar em horários estendidos (segunda a sexta-feira, das 8h às 20h; e aos sábados e domingos, das 8h às 14h) para evitar aglomerações, embora não haja um calendário para imunização.

Coordenadora do Núcleo de Saúde de Formosa (GO), Amanda Regina da Silva conta que uma primeira reunião entre o estado goiano e os municípios ocorreu na última segunda-feira, mas sem direcionamento concreto. “Pediram, apenas, para que tentássemos começar a organizar questões de estrutura e logística, como os locais de aplicação”, aponta. Com população estimada de 123,7 mil pessoas em 2020 (IBGE), Formosa está à espera de diretrizes da secretaria goiana de Saúde para determinar locais de aplicação, logística e pessoal.

A secretaria municipal não sabe a quantidade de pessoas que será imunizada nem quais serão as etapas de vacinação. “Porém, não serão muitos pontos (de vacinação) para a covid-19, apenas em algumas poucas unidades de saúde”, completa Amanda.

Em Águas Lindas de Goiás, com uma população de 217,6 mil habitantes, apesar da disponibilidade de locais para vacinação em 19 unidades de saúde e uma policlínica, duas salas devem ser mobilizadas. Segundo Euder Vieira, responsável técnico da Vigilância em Saúde, o município espera receber poucas doses na primeira etapa de imunização, por isso, a prioridade será vacinar os idosos. “A gente não sabe quanto estará disponível de imediato, a gente está trabalhando com pouco, se chegar muito a gente vai agradecer”, afirma.

No Novo Gama (GO), as três salas de vacinação determinadas pelo plano operacional serão mobilizadas em escolas públicas, por conta do espaço. Será preciso contratar profissionais de saúde para atuar, especificamente, nesses locais, para não deslocar profissionais de outros serviços de saúde. O secretário de Saúde, Julio Pereira, destacou que o município conta com 128 mil kits de seringa e agulhas, mas que esse material é para uso de toda a secretaria, e não exclusivamente para a campanha de imunização contra a covid-19. A população nova-gamense é de cerca de 115,7 mil pessoas.

Estrutura

Apesar de o percurso mineiro da imunização contra a covid-19 não datar de agora, algumas questões seguem em aberto. O estado conta com mais de 700 câmaras frigoríficas para o armazenamento dos imunizantes, mas, nos municípios de Minas Gerais que compõem a Ride, a incerteza não é diferente daquela predominante em Goiás.

Ana Paula Cabral, gerente da Regional de Saúde de Unaí (MG), informou que a cidade, de cerca de 85 mil habitantes, está “aguardando as definições do Ministério da Saúde” e que “nossa vacina será fornecida pela União.” Maiara Antunes, secretária de Saúde de Buritis (MG), endossou o coro sobre a falta de previsão para encaminhamento das vacinas ao município, que integra a Gerência Regional de Saúde de Unaí com mais onze municípios.

“Hoje (segunda-feira), recebi a informação que as seringas específicas para a vacina contra a covid-19 estão liberadas na gerência regional, ou seja, já estão no município. Mas, a divisão dos materiais em grupos prioritários não foi passada (pela Gerência Regional de Saúde). Eles foram, apenas, separados em remessas”, detalha Maiara Antunes, acrescentando que a primeira remessa foi distribuída para os 12 municípios da gerência. Buritis tem em torno de 25 mil habitantes.

Alguns passos à frente de Goiás e do DF, a SES-MG começou a distribuição das seringas agulhadas na terça-feira. Das 50 milhões unidades necessárias, 5,5 milhões estão a caminho das 28 regionais de saúde mineiras, compostas por 3.451 salas de vacinação, segundo a secretaria estadual.

No mesmo dia e algumas horas depois de o Instituto Butantan divulgar a eficácia global da vacina CoronaVac em 50,38%, o governo mineiro deu início ao processo seletivo para contratação de 79 profissionais de saúde para participar do plano de vacinação.

Receio

Diante das incertezas, pessoas do Entorno pretendem se imunizar na capital. Rodrigo de Jesus, 35 anos, é morador de Valparaíso de Goiás e se prepara para vir ao Distrito Federal receber a dose. “Sinceramente, vou procurar para o lado do DF, como a vacina vai ser a mesma”. Ele reclama que o sistema de saúde no Entorno é deficitário. “Toda vez que procuro atendimento aqui, nunca consigo: ou não tem médico ou demora. Então, geralmente, vou no setor Oeste do Gama”, explica.

Cícero Batista, 45 anos, também costuma usar a estrutura de saúde do DF, e é, inclusive, doador no Hemocentro de Brasília. “Vou direto no Hospital de Base. Aqui, em Goiás, é muito bagunçado, os próprios profissionais de saúde recomendam ir para Brasília, porque aqui não tem especialistas, e é mais fácil do que ir a Goiânia”, afirma o morador de Valparaíso, cidade com mais de 172 mil habitantes.

“Conforme a experiência das campanhas de vacinação anteriores, há uma grande procura da população do Entorno pela imunização no DF. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) já considera essa procura e tem repassado os dados ao Ministério da Saúde, para que haja posterior reposição das doses por parte do órgão federal, evitando prejuízos para a população do DF”, afirmou a pasta, em nota.

O secretário adjunto de Assistência à Saúde do DF, Petrus Sanchez, confirma que as vacinas entregues ao DF vão suprir a população, já que a imunização chegaria para Minas e Goiás ao mesmo tempo. “Se (o Ministério da Saúde) vai começar a vacinação em 20 de janeiro, então é porque haverá distribuição suficiente para os estados. Uma ou outra pessoa, que eventualmente vier do Entorno para ser vacinada aqui, não vai impactar”, avalia. “O quantitativo repassado pelo Ministério será de acordo com a população do Distrito Federal”, completa o secretário adjunto.

Um estudo da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) feito em julho do ano passado apontou que, durante a emergência da pandemia do novo coronavírus, a rede de saúde no DF serviu de suporte para tratamento de pacientes moradores do Entorno, e há chances de que a situação se repita na vacinação contra a covid-19.

Segundo o levantamento, 44,9 mil (91,5%) casos confirmados da doença na Ride, em junho, estavam registrados no DF, ao passo que os municípios de Goiás tinham 3.760 casos (7,7%) e os de Minas Gerais, 414 casos (0,8%). Se considerados os doze municípios goianos mais próximos de Brasília, são cerca de 3,5 mil infecções no mesmo período. Ou seja, quanto mais próximo ao DF, maior a concentração de ocorrências da doença. O estudo da Codeplan mostrou que Novo Gama (GO) (69%) e Águas Lindas de Goiás (39%) são os municípios que mais utilizam os serviços de saúde do DF.

Doses suficientes

A distribuição das doses aos estados pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) cabe ao Ministério da Saúde, que firmou acordo com o Instituto Butantan (SP), parceiro na produção de 46 milhões de inoculantes da farmacêutica chinesa Sinovac. Tendo esse montante como referência, a previsão é de que os estados recebam lotes proporcionais ao tamanho da população. Para Goiás, seriam encaminhadas 3,2 milhões de doses. A Secretaria de Saúde de Minas não sabe a quantidade de doses que será enviada pelo Ministério da Saúde, mas espera receber uma previsão dos números na próxima semana.

Petrus Sanchez ressaltou, no entanto, que, caso o DF não fosse seguir o cronograma de vacinação federal, haveria, sim, o risco de não ter imunizantes para as populações prioritárias locais. “Residentes do Entorno, bem como de qualquer outro estado, podem ser vacinados no ente federativo em que estiverem, seja qual for, é lei. O SUS é universal e tem a obrigação de atender a todos, não importa onde”, acrescenta o secretário adjunto.

“Seria diferente (se o DF fosse começar antes). Lógico que a população de Goiás, Minas e Bahia, por exemplo, viria para cá receber a vacina. Mas, como vamos iniciar na mesma época (que o Governo Federal), não vai fazer muita diferença”, observa.

O Distrito Federal também seguirá o cronograma do Ministério da Saúde, conforme declarado no Plano estratégico e operacional de vacinação contra covid-19, divulgado pela Secretaria de Saúde na semana passada. A pasta informou que o treinamento com os responsáveis pela aplicação de vacinas no DF vai começar em 18 de janeiro.

É preciso diálogo

“É um processo lento, não é como a vacina da gripe, que vem toda de uma vez. Infelizmente, os governos (locais) estão dependendo do governo federal. Não tem vacina, não podem começar a vacinação nem sabem o quantitativo que vão receber. Os estados e municípios estão amarrados esperando as diretrizes do Ministério da Saúde. A gente ainda tem essa questão complexa da população do Entorno que vem usar o serviço de saúde de Brasília. Tem que ter um sistema de identificação nominal de cada indivíduo e onde mora, para fazer um controle muito rígido. Essa preparação vai ser muito complexa. Isso, eu acho que o DF já poderia realizar: sentar com os municípios e fazer essa discussão técnica. Mas, parece que isso não aconteceu, embora não dependa do governo federal.”

»fonte:  Epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do PNI.

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