Longa brasiliense se inspira em clássicos dos anos 1980 para provocar reflexão

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Brasília, Esplanada dos Ministérios, possivelmente final da década de 1980, período pós-ditadura militar. Esse é o cenário do longa-metragem dirigido por Santiago Dellape, A Repartição do Tempo, que estreia hoje em todo o País. Com tom de comédia, o cineasta utiliza Brasília como pano de fundo para trabalhar um gênero não muito comum no cinema brasileiro: a ficção científica.

Inspirado pela literatura de Franz Kafka e Dostoiévski, e em longas como Brazil – O Filme, de Terry Gilliam, além de clássicos da Sessão da Tarde, de Feitiço do Tempo a Goonies, e a extensa filmografia dos Trapalhões, Santiago desenvolveu – ao lado de Davi Mattos – roteiro que mescla viagem no tempo e a burocracia brasileira. “O filme tem ecos do curta Nada Consta (2006), que tinha essa mesma proposta, de ser uma comédia de ficção científica tratando sobre a burocracia. Ao longo da carreira amadurecemos muitas essas ideias e, em uma fase da vida em que éramos funcionários públicos (o Davi não é mais), veio a inspiração que faltava para contar essa história”, explica o diretor.

Santiago conta que o longa foi filmado em 2015, durante quatro semanas, e que o filme custou R$ 1,5 milhão, sendo R$ 1 milhão patrocinado pelo FAC – Fundo de Apoio à Cultura do DF.

A trama envolve um grupo de funcionários de um órgão público chamado Repi – Registro de Patentes e Invenções. É lá que, em um belo dia, Dr. Brasil (Tonico Pereira) protocola o protótipo de uma máquina do tempo. A tal máquina cai nas mãos do psicótico Lisboa (Eucir de Souza), chefe da repartição, e acaba sendo usada para duplicar funcionários públicos e aumentar a produtividade do setor.

Sobre o tempo

Além de Tonico Pereira, o filme tem a participação especial do eterno trapalhão Dedé Santana. Já o protagonismo é “dividido” por Edu Moraes e o tempo. “Se o tempo tem uma dimensão espacial, se for mesmo possível voltar ao passado ou avançar para o futuro, fica a impressão de que todos os momentos que já existiram estão acontecendo agora, ao mesmo tempo, em algum lugar no espaço-contínuo. Talvez essa seja a única eternidade ao nosso alcance, mesmo que não possamos usufruir dela livremente”, destaca o cineasta.

Segundo Dellape, o filme tenta mostrar que “todas as nossas escolhas interferem na realidade que nos cerca de modo irreversível. Portanto, é inútil remoer o passado; o importante é aprender com os erros e buscar fazer escolhas melhores e mais conscientes”.

Crítica ao funcionalismo público

Com um tom crítico, debochado e bem-humorado a respeito das instituições públicas, o novo longa de Santiago Dellape (Plano B, 2013), A Repartição do Tempo, faz uma sátira ao aparato estatal, ao funcionalismo público, ao nepotismo nos órgãos nacionais e à cultura do esforço mínimo dentro das repartições. Tudo isso por meio de uma viagem no tempo possibilitada por uma máquina inventada pelo Dr. Brasil (Tonico Pereira).

Toda a narrativa se desenvolve dentro do Repi – Registro de Patentes e Invenções, um órgão público conhecido por sua morosidade no despacho das invenções. A crítica ao Estado se torna ainda mais forte quando o espectador percebe que a história não andaria se dependesse dos funcionários da repartição. Tudo acontece sem querer.

Jonas da Silva (Edu Moraes), o personagem central da trama, ativa uma máquina do tempo que foi deixada no Repi para liberação da patente e volta alguns minutos no tempo. O patrão, Lisboa (Eucir de Souza), um retrato caricato da classe empresarial cheio de aversão pela “esquerda”, descobre a máquina e decide usá-la a seu favor.

A estratégia de Lisboa é duplicar os funcionários, que formam um retrato, também caricato, dos servidores públicos preguiçosos que, como o patrão gosta de deixar claro, “mamam na teta do Estado”.

Brasília em evidência

Os diálogos são construídos, na maioria das vezes, por palavras e termos do funcionalismo público. Essa temática ganha mais força por meio dos belos e vários planos da Esplanada do Ministérios.

Apesar de ter sido rodado em 2015, antes dos grandes debates acerca da Reforma Trabalhista, traz profundos questionamentos sobre questões de relacionamento entre patrões e empregados. A morosidade aqui, na chegada às salas de cinema, tornou o filme mais potente no debate social que levanta, meio sem querer. O tempo se fez, mais uma vez, protagonista também no mundo real.

Saiba mais

A Repartição do Tempo foi exibido na Mostra Brasília do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2016, e conquistou menção especial do júri no 37º Fantasporto, festival dedicado a produções de terror, ficção científica e fantasia, realizado em Portugal.

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