Fim do auxílio emergencial atinge quase 800 mil famílias no DF

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O auxílio emergencial pago pelo governo federal no início da pandemia chegou ao fim. Segundo o Ministério da Cidadania, 793,9 mil pessoas estavam elegíveis para receber as cinco parcelas do benefício, no Distrito Federal, no ano passado, injetando de R$ 2,70 bilhões na economia da capital. Proporcionalmente, a cada 100 mil habitantes, o DF é segunda unidade da federação com mais casos da covid-19 e óbitos em decorrência da doença e tem 11 regiões administrativas com o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) críticos em relação à renda e trabalho. Nessas perspectivas, combater a desigualdade social sem o suporte da verba federal é um dos principais desafios do Executivo local para 2021.

Uma das pessoas que dependia desse dinheiro é Eunilde Gonçalves, 46 anos. Moradora do Sol Nascente e mãe de três crianças, ela sustenta a família com dificuldade. “Minha renda, hoje, é o Bolsa Família, que dá uns R$ 220, mas ajuda muito nas contas. Eu recebia o auxílio de R$ 600 e comprava comida, remédios. Agora, não sei como vai ser daqui para a frente, só sei que vai fazer muita falta”, lamenta.

Eunilde não pode trabalhar devido a problemas de saúde, o que acaba sendo outra barreira. “Tenho duas hérnias de disco que dão muitas dores, então tem dia que não consigo me levantar e não dá para ter um serviço assim. Além disso, sofri uma queda há um tempo e fiquei com problema no joelho. No mês passado, gastei R$ 116 do auxílio só de medicação”, conta. Antes da pandemia e da doença na coluna, ela atuava como doméstica, mas não tinha carteira assinada. Mesmo assim, conseguia sustentar os filhos, de 13, 9 e 6 anos. “Ficou muito difícil. Os dois mais velhos também fazem tratamento, um tem bronquite e asma, e a outra tem intolerância à lactose e passa muito mal”, detalha a dona de casa.

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Alimentos e desemprego

César Bergo, presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon), avalia que a dimensão do auxílio emergencial foi grande para os favorecidos e para a economia da capital. “Observamos que houve um impacto muito positivo do auxílio, principalmente, no varejo, em relação aos supermercados e às compras de produtos, porque famílias sem renda fixa tiveram esses recursos úteis que favoreceram o consumo. Sem esse benefício, a projeção, daqui para frente, é de muitas dificuldades, até porque Brasília depende do setor de serviços, atividades de turismo e comércio, por exemplo. Isso realmente favoreceu o DF e, agora, pode prejudicar, no mesmo nível”, pondera César.

O economista lembra que o Governo do Distrito Federal (GDF) chegou a elaborar um auxílio, o Renda Emergencial, que transferia R$ 408, mensalmente, para cadastrados nos sistemas da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) que não tenham sido contemplados com nenhum outro benefício, mas ressalta que é difícil para o GDF manter um programa assistencial com a mesma relevância que teve o auxílio federal. “É complicado para Brasília bancar isso. Mas, o que pode ser feito é buscar investimentos para minimizar a questão do desemprego, que está alta no DF. O auxílio foi uma mão na roda, porque a pandemia atingiu, diretamente, o setor das pessoas que trabalham de forma autônoma”, pontua.

A última Pesquisa de Emprego e Desemprego no Distrito Federal (PED-DF), divulgada em dezembro pela Companhia de Planejamento (Codeplan) com dados de novembro, mostra que há 288 mil pessoas desempregados na Área Metropolitana de Brasília (AMB) — composta pelo DF e 12 municípios goianos do Entorno. Dados de outro estudo, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid-19, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), expõe um aumento de, aproximadamente, 37% de pessoas desocupadas no Distrito Federal entre maio e novembro.

Para combater as estatísticas negativas na pandemia, César diz que é fundamental ter ações em conjunto com os órgãos de vigilância sanitária. “A economia não vai caminhar enquanto houver o impacto da covid-19, e estamos vendo que, em Brasília, a tendência é aumentar mais o número de casos. As pessoas estão cansadas do isolamento, mas se não tiver solução sanitária, essa é a solução. A vacinação seria uma motivação para as pessoas aguentarem mais. No entanto, se não se vê, no horizonte, uma solução, fica difícil adotar medidas para suprir os problemas da pandemia e da economia”, observa.

“Momento de incertezas”

Presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Distrito Federal (Fecomércio-DF), Francisco Maia avalia o cenário atual com preocupação para o comércio do DF. “Tivemos mais de R$ 2 bilhões, no DF, com o auxílio emergencial, e a injeção do 13º salário no fim do ano passado, o que fez a economia aquecer muito, mas, nesse começo de ano, o que temos é um momento de incerteza, não sabemos o que vai acontecer nos próximos dois meses”, alerta. Ele destaca que o incentivo à construção civil tem trazido resultados significativos. “O que o GDF faz nesses momentos e sempre ajuda muito são as obras, que empregam muitas pessoas e alimentam o comércio em geral. Isso é essencial, porque a renda federal auxiliava muito os pequenos negócios, e as pessoas compravam mais nas regiões administrativas, ou seja, fazia o dinheiro movimentar aqui e contribuía com os mais sacrificados pela pandemia” Francisco Maia.

Mardoni Henrique de Souza, 38, é casado e sustenta os quatro filhos e a mulher. A família de seis pessoas tem passado dificuldade financeira. “Moramos no Paranoá, e eu tenho um serviço com reciclagem. Ganho uns R$ 1.200 por mês, mas sem o auxílio emergencial fica pouco. A gente comprava alimento, fralda, pagava as contas. Agora, está mais difícil, sem essa ajuda fica ruim”, afirma. O casal depende do Bolsa Família e de doações para complementar a renda. “A gente ganha uma cesta básica, de vez em quando, que ajuda, mas os R$ 600 fazem muita falta”, conta Mardoni.

A Secretaria de Trabalho do DF destaca que a capital teve, em novembro, a menor taxa de desemprego desde de janeiro de 2018 — 17,8%, segundo dados da Codeplan. A pasta fomenta políticas públicas como o Programa Qualificação Profissional e Frente de Trabalho, o Renova-DF, que capacita pessoas desempregadas para atuação nas áreas de construção civil e jardinagem, e a divulgação diária de vagas de emprego no site da secretaria e nas agências do trabalhador.

Ações

O GDF calcula que os programas do Executivo local na pandemia, como Cartão Prato Cheio, Renda Emergencial, Mobilidade Cidadã e Auxílio Calamidade, ajudaram mais de 130 mil moradores, injetando cerca de R$ 100 milhões na economia do DF. Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento Social informou que, somente em dezembro, realizou o “aporte de recursos de R$ 174.336,00 para concessão de 376 benefícios”, sendo que, “no total, foram pagos 109 benefícios excepcionais, que é quando o beneficiário recebe uma ajuda mensal de R$ 600 para pagar o aluguel”. Esse benefício vale por um período de até seis meses para que o habitante do DF possa se restabelecer, e pode ser prorrogado.

“Também foram pagos 261 auxílios calamidade, no valor de R$ 408, recurso que é destinado às pessoas em situação de vulnerabilidade social que passam por dificuldades financeiras causadas por desastre ou calamidade pública, como ocorre em razão da pandemia da covid-19. Nesse caso, a parcela é única, mas pode ser solicitada mais de uma vez, após análise da equipe socioassistencial. Ao longo de 2020, no total, foram pagos 10.346, sendo que em 2019 apenas 70 benefícios foram concedidos, um aumento motivado pela pandemia”, finalizou.

Pesquisa

O IVS, divulgado em dezembro, é resultado de um estudo da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh) e Codeplan. Das 33 regiões administrativas do DF, Estrutural e Sol Nascente/Pôr do Sol são as mais vulneráveis socialmente. A pesquisa avalia 24 indicadores, em quatro grupos: Dimensão de Infraestrutura e Ambiência Urbana, Dimensão de Capital Humano, Dimensão Habitacional e Dimensão de Renda e Trabalho. Nessa última, Varjão, Itapoã, Scia/Estrutural, Núcleo Bandeirante, Paranoá, São Sebastião, Varjão, Itapoã, Scia/Estrutural, Núcleo Bandeirante, Paranoá, São Sebastião, Sol Nascente/Pôr do Sol, Taguatinga, Samambaia, Candangolândia e Vicente Pires tiveram índice acima da média de 0,5, sendo colocados em situação mais critica.

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