Do Palafrugell ao Flamengo: em nome do cruyfismo, Domènec Torrent ignorou críticas do pai ao Dream Team do Barcelona de Johan Cruyff

0

Domènec Torrent assume o Flamengo nesta segunda-feira com pelo menos um ponto comum em relação ao antecessor Jorge Jesus: o encanto pelo cruyfismo. O senhor de 58 anos foi praticamente catequizado pelo ídolo. É fiel ao futebol praticado – e depois ensinado – pelo maior craque da Holanda e um dos principais técnicos escola laranja, Johan Cruyff, antes mesmo de conhecer e virar discípulo do mestre Pep Guardiola. Ama o 4-3-3. Dificilmente abre mão dos pontas. Tem uma mania por onde passa: achar um jogador abusado capaz de encarar os adversários no mano a mano, um contra um, driblá-lo, colocar a bola na área e bagunçar com o sistema defensivo do inimigo. Curte demais jogadores versáteis. Jon Andoni Goikoetxea, um dos caras do Dream Team de Cruyff no Barcelona, é uma das referências de Dome neste quesito.

Ícone do carrossel holandês no vice-campeonato na Copa do Mundo de 1974, Cruyff foi jogador do Barcelona de 1973 a 1978 e técnico azul-grená de 1988 a 1996. O pai de Doménec Torrent detestava o sistema de jogo e o estilo daquele time batizado de Dream Team, que empilhou 11 títulos em oito anos. Entre eles, a primeira Champions League na história do clube na temporada 1991/1992. A equipe tinha Zubizarreta, Ronaldo Koeman, Pep Guardiola, Michael Laudrup, Hristo Stoichkov e Goikoetxea, um dos mais admirados pelo treinador.

O jovem Dome fazia ouvido de mercador para os discursos do pai. O meia canhoto com passagem pelos minúsculos Olot e Guixols estava prestes a pendurar a chuteira aos 27 anos. Mal sabia o crítico patriarca que o filho se inspirava naquele Barcelona de Cruyff para virar treinador.

 

Presidente Rodolfo Landim apresenta o Ninho do Urubu a Dome. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

 

“Meu pai ficava zangado com as escalações dele. Eu alucinava com a movimentação do time, vendo Goikoetxea (originalmente lateral-direito, mas que jogava de zagueiro, meia, lateral e até atacante) na ponta, a velocidade no toque de bola, os três (jogadores) na frente. Eu queria fazer isso. Embora eu não tenha entendido direito, porque copiar e colar não funciona”, reconhece Dome, em uma belíssima entrevista ao colega Joan Domènec do jornal El Periódico, em fevereiro de 2019.

Cruyff conquistou a Champions League em 1992 no sistema tático 3-5-2. Porém, Dome é fã de uma configuração raiz usada pelo técnico no Barcelona – o 4-3-3 à holandesa. Colocou o formato em prática nas primeiras experiências como técnico antes de firmar a parceria com Guardiola. “Uso o 4-3-3 desde que estive no Palafrugell (1998 a 2003)”, recorda Dome.

 

“Meu pai ficava zangado com as escalações dele. Eu alucinava com os movimentos do time, vendo Goikoetxea na ponta, a velocidade no toque de bola, os três (jogadores) na frente. Eu queria fazer isso. Embora eu não tenha entendido direito, porque copiar e colar não funciona”

 

Um tanto revolucionário, ele admite que, à época, contrariou a modinha do 4-4-2. O 4-3-3 de Dome começou com ponta obrigado a marcar lateral, mas ele logo mudou. “O melhor jogador que eu tinha estava se esforçando muito para defender e era difícil para ele atacar. Pensei: o melhor ponta não pode se cansar. Se os bons são os atacantes, que estejam com fôlego. Vamos defender com sete e deixar os três lá na frente”, propôs na passagem pelo Palafrugell.

 

O catalão de 58 anos desembarca no Galeão. Foto: Divulgação/Flamengo

 

A veneração por pontas abertos, dribladores, bons no um contra um e eficientes nos cruzamentos não significa, na prática, uma ideia fixa na cabeça de Dome. “Depois de tantos anos com Pep (Guardiola), que inventa coisas, você aprende a mudar se tiver opções que abrem as pontas para você. Sané ou Sterling (Manchester City) são pontas, dão amplitude. Mas e se você não tem? A ideia de usar meias (nessa função) me parece ótima. Usamos pontas por dentro e laterais como extremos. O futebol pode ser jogado de mil maneiras”, argumenta na entrevista.

 

“O melhor jogador que eu tinha estava se esforçando muito para defender e era difícil para ele atacar. Pensei: o melhor ponta não pode se cansar. Se os bons são os atacantes, que estejam com fôlego. Vamos defender com sete e deixar os três lá na frente”

 

Carente de um ponta-esquerda no Barcelona em uma das temporadas como auxiliar de Guardiola, Dome fez parte da ousadia da comissão técnica. Pep colocou David Villa na ponta. Não era um extremo, mas fez um trabalho diferente. Abriu o campo e, ao jogar com falsos noves como Messi (que se movimentava), Villa ocupava espaço entre a lateral e o centro”, conta.

Dome chega a citar dois centroavantes brasileiros para comprovar na prática a flexibilidade tática dele para extrair o máximo de qualidade do elenco. “Para as pessoas entenderem: se você tem Romário ou o Ronaldo daquela época, não vai colocar um deles no fim (do jogo) porque quer jogar 4-3-3. O futebol é muito mais flexível que o meu 4-3-3. Sempre há nuances. Você pode ganhar de várias maneiras. O que é jogar bem? Para mim, ter a bola movendo-a com dois toques, sendo muito posicional, o que não significa ser estático”, explica o treinador.

 

O futebol é muito mais flexível que o meu 4-3-3. Sempre há nuances. Você pode ganhar de várias maneiras. O que é jogar bem? Para mim, ter a bola movendo-a com dois toques, sendo muito posicional, o que não significa ser estático”

 

É possível que, em breve, o Flamengo tenha que buscar uma espécie raríssima no futebol: o driblador. “Eu gosto de jogadores rápidos e capazes de desequilibrar no um contra um. Isaac Cuenca (ex-Barcelona, atualmente no Vegalta Sendai do Japão) tinha essa virtude. Você dava a bola para ele, ele encarava o adversário, driblava e cruzava. Era o suficiente”, observa.

 

Torrent recebe camisa personalizada. Foto: Divulgação/Flamengo

 

Em defesa do 4-3-3, o comandante rubro-negro costuma dizer que o sistema predileto dele não tem fronteiras. “Pode ser jogado em qualquer lugar do mundo. Pep provou isso. Na Inglaterra, eles disseram que era impossível. O Manchester City conseguiu quebrar oito recordes históricos. Um bom futebol pode ser jogado em qualquer lugar. Você precisa de bons jogadores, disso ninguém escapa”, reconhece Dome, que terá um elenco talentoso e vitorioso no Flamengo.

 

“(O 4-3-3) pode ser jogado em qualquer lugar do mundo. Pep provou isso. Na Inglaterra, eles disseram que era impossível. O Manchester City conseguiu quebrar oito recordes históricos. Um bom futebol pode ser jogado em qualquer lugar. Você precisa de bons jogadores, disso ninguém escapa”

 

O catalão considera o trabalho dos técnicos superdimensionado. “Sempre digo, onde quer que eu vá, que o futebol pertence aos jogadores, não aos treinadores. Existem treinadores como Pep (Guardiola) que melhoram todos eles, outros que não os aprimoram tanto e outros que até os pioram. Você precisa perguntar ao jogador o que ele pode fazer. E colocar o sistema a serviço dos jogadores. O 4-3-3 funciona contra todos os sistemas, um 5-3-2 funciona contra todos”.

O Brasil é o quinto país em que Dome trabalhará. Passou pela Espanha, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos e compara cada uma delas. “Na Alemanha, encontramos uma liga muito agressiva e muito física. É um campeonato muito bonito e bem organizado”, diz.

 

“Sempre digo, onde quer que eu vá, que o futebol pertence aos jogadores, não aos treinadores. Existem treinadores como Pep (Guardiola) que melhoram todos eles, outros que não os aprimoram tanto e outros que até os pioram. Você precisa perguntar ao jogador o que ele pode fazer. E colocar o sistema a serviço dos jogadores. O 4-3-3 funciona contra todos os sistemas, um 5-3-2 funciona contra todos”

 

“Na Inglaterra, permitem mais contato. É uma liga difícil porque você joga muito mais jogos, o clima influencia, há mais risco de lesões e o ambiente dos campos parece levar você a uma loucura coletiva, muitas coisas acontecem em um jogo”, testemunha.

“O Espanhol é o mais técnico, é onde o futebol é melhor jogado. O Inglês tem muitas variações porque todas as principais equipes têm treinadores estrangeiros. Nos Estados Unidos, os treinadores jogam muito atrás (sem a bola), há jogadores fortes fisicamente”, compara o novo comandante do Flamengo. Ele começará a colocar as ideias em campo nesta segunda-feira para a estreia no Campeonato Brasileiro contra o Atlético-MG, domingo, às 16h, no Maracanã.

 

 

Crédito: As declarações do técnico usadas neste post foram dadas em entrevista ao colega Joan Domènec do jornal catalão El Periódico, em fevereiro de 2019.

Deixe o seu comentário