Brasilienses entram na lista da ONU dos 100 negros mais influentes do mundo

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Betty e Brenda Agi são fundadoras da ONG Compaixão Internacional e, há 10 anos, mobilizam pessoas em prol de causas humanitárias

ATUALIZADO 18/10/2020 10:10

Brenda e Betty AgiREPRODUÇÃO
Desde que deram as mãos pela primeira vez, as irmãs Betty e Brenda Agi, de 29 e 28 anos, não soltaram mais. As brasilienses cresceram juntas, mudaram-se para Anápolis (GO) ainda crianças, escolheram cursar biomedicina e, tempos depois, voltaram suas vidas e carreiras a trabalhos humanitários. A resolução não impactou somente as milhares de pessoas em todo o mundo com as quais trabalham, como levou a dupla a figurar — mais uma vez, lado a lado — na lista dos 100 afrodescentes mais influentes do planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

A lista foi divulgada no dia 5 deste mês durante a programação da 74ª Assembleia Geral da ONU. Outros oito brasileiros também fazem parte, como os cantores Iza e Léo Santana, a deputada estadual Erica Malunguinho e a ativista Ingrid Silva. As irmãs Agi foram reconhecidas na categoria trabalho humanitário e ativismo, por meio da ONG Compaixão Internacional, que fundaram há 10 anos. A organização atua como um centro de assistência médica, preventiva e odontológica e já atendeu mais de 70 mil pessoas em vários países.

Em entrevista ao Metrópoles, elas contam que tudo começou há uma década. Após a formatura em biomedicina, decidiram passar alguns meses na África, contribuindo com trabalhos voluntários. Em uma das muitas missões, elas se depararam com uma cena que as marcou.

“Era uma menina dançando descalça na areia quente do deserto, com os pés machucados e expressão de dor. Falamos para ela se calçar. A garota disse que não tinha chinelos. Na ocasião, não podíamos oferecer calçado para todos. Voltamos no Brasil com isso em mente. Começamos uma ação de arrecadação Orkut, de 250 pares, e nunca mais paramos”, lembra Betty.

Filhas de pai moçambicano e mãe americana radicada no Brasil, Brenda e Betty foram ensinadas a ignorar as fronteiras geográficas quando o assunto é fazer o bem. Da experiência na África até hoje, já foram arrecadados 55 mil pares, de doação de pessoas físicas, entregues a população em situação de vulnerabilidade social de 17 países.

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Atualmente, a organização possui 16 coordenadores, três escritórios no Brasil, um em Angola, mais de 40 voluntários fixos e mais de mil voluntários temporários.

Apesar das proporções que o gesto tomou, a iniciativa nunca foi encarada como caridade e altruísmo, mas como um movimento natural. Tanto que, ao serem questionadas sobre a inspiração para dedicarem a própria juventude a essas e outras causas, respondem em coro: “Desde cedo, nossos pais nos ensinaram a dividir”.

“Só assim a vida faz sentido. Bens materiais, riquezas e posses não têm valor quando não temos com quem compartilhar”, completa Brenda.

“Caminho sem volta”

A campanha de arrecadação de calçados foi, como elas mesmas classificam, o “início de um caminho sem volta”. Depois dela, surgiram outras, com destaque para o Projeto Kiluba, que promove a autonomia econômica de mulheres em situação de risco por meio de cursos de corte e costura; e o Sol Para Todos, voltado para combater o preconceito a pessoas com albinismo, sobretudo em comunidades africanas.

Mesmo que a lista tenha servido para dimensionar a importância do trabalho, que chamou atenção até de famosos como Bruno Gagliasso, é nos relatos de pessoas impactadas pelas ações da ONG que elas encontram energia para continuar.

“Recentemente, recebemos a foto de uma menina à qual damos suporte desde 2014. Ela vai se formar em biomedicina também. É nessas horas que vemos que desistir ou parar de fazer não é mais uma opção. Vamos continuar trabalhando com isso, terminar de estruturar nossa causa, ver mais meninas formadas, mais pessoas engajadas”, afirma Brenda.

O próximo passo é concluir uma campanha de apadrinhamento. “Nossa meta é conseguir 500 pessoas, que possam doar 30 reais por mês, para que possamos manter as atividades da ONG. Não recebemos nenhum aporte, é tudo voluntário, doado por pessoas físicas. Mais que nunca, precisamos de pessoas para se envolverem e ajudarem, com R$ 1 por dia”, explica Betty. “A vontade que temos é de calçar o mundo e falta ainda falta muito pra isso”, conclui.

Interessados em ajudar com doações ou voluntariado podem fazê-lo pelo site da iniciativa.

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