A escolha da paternidade: conheça história de pais que adotaram

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A Revista convida o leitor a conhecer a história de alguns homens que encontraram na adoção o caminho para realização do sonho da paternidade
AC Ailim Cabral PM Por Marcella Freitas*
postado em 11/08/2019 08:00 / atualizado em 11/08/2019 11:18
Ricardo Trevisan (de barba) e Jair Gonçalves com as filhas Ranara e Raira(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Ricardo Trevisan (de barba) e Jair Gonçalves com as filhas Ranara e Raira
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Seja junto, seja separado, a missão da paternidade exige disposição, paciência, resiliência e, claro, muito amor. “O melhor pai é quem estabelece uma boa relação com o filho. E, apesar das dificuldades, não tem medo de expor suas vulnerabilidades, de ser verdadeiro”, afirma a psicóloga Maria da Penha Oliveira da Silva, do Instituto Aconchego.

O papel da família é essencial para compreender e validar os dilemas e os sentimentos do filho. Sem contar a maturidade necessária para guiar e educar uma criança. “O apoio da família será essencial para escrever os passos dela de agora em diante, para que seja uma relação autêntica”, observa a professora Miriam Pondaag, doutora em psicologia e professora do Centro Universitário Iesb.

Neste Dia dos Pais, a Revista convida o leitor a conhecer a história de alguns homens que encontraram na adoção o caminho para realização do sonho da paternidade.
Pais que nascem da alma
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Pai Jair e pai Ricardo. É assim que as irmãs Ranara Gonçalves Trevisan, 8 anos, e Raira Gonçalves Trevisan, 6, diferenciam os dois pais, o professor universitário Ricardo Trevisan, 43, e o aposentado e estudante Jair Gonçalves, 49. Amorosas, enquanto posam para as fotos, não perdem a oportunidade de encher os pais de beijos ou apenas de segurar suas mãos com olhares de ternura. “Sem sombra de dúvidas, receber um carinho delas é uma das melhores coisas sobre ser pai”, diz Ricardo.

Jair e Ricardo não fazem questão de presentes ou homenagens neste Dia dos Pais — apenas de estar com as filhas. Mas Ranara e Raira têm outros planos e querem aproveitar a data para mostrar a alegria que sentem com a família que ganharam há cerca de dois anos. Elas preparam uma surpresa. “A gente quer fazer uma festa, com bolo e muitos docinhos”, entrega Ranara. E a irmã completa com um sorriso no rosto: “E muitos brigadeiros”.

A paternidade sempre fez parte do imaginário de Ricardo. Porém, durante a descoberta da orientação sexual, o sonho acabou adormecido. “Romper com os preconceitos sociais e familiares e me assumir perante eles já me pareceu um desafio e tanto. A ideia de formar uma família ficou escondida em algum canto”, lembra. Jair, apesar de nunca ter se imaginado pai, sempre teve ligação forte com crianças, e a adoção despertou sua atenção.

Realizado profissionalmente, Ricardo sentiu que faltava algo em sua vida. Em 2014, surgiu a ideia de adotar uma criança. Ele estava solteiro e encontrou apoio na família, que incentivou o processo. O professor passaria um ano morando fora, e o período seria de amadurecimento e preparação para o desafio.

No meio do caminho, conheceu Jair. Os dois começaram a namorar a distância e, ciente do processo, Jair topou participar da formação da nova família. “Percebi rapidamente que ele seria um grande pai”, elogia Ricardo.

O casal nunca considerou alternativas além da adoção. “Meu entendimento da complexidade e das mazelas sociais do nosso país deixou claro que o caminho a ser seguido seria abraçar e aconchegar uma criança de um abrigo”, diz Ricardo. Jair completa: “Nunca achei que filho fosse somente consanguíneo. Hoje tenho certeza disso”.

Segundo o casal, o maior desafio é ter pequenos seres que dependem de você, e contribuir para a formação do caráter das crianças. Mas, para eles, ser pai compensa todas as dificuldades que a paternidade pode trazer. “Só sou pai porque elas existem. Só sou pai porque nelas me reconheço. Só sou pai porque o Jair está ao meu lado. Só sou pai porque, com elas, planejo o meu, ou melhor, o nosso futuro. Só sou pai porque deixarei na memória de ambas a imagem de um pai”, declara-se Ricardo.

Jair também não perde a oportunidade de declarar o amor pela família: “Ser pai é algo maior que apenas questões biológicas. É um encontro de almas, as meninas não são sangue do meu sangue, mas são alma da minha alma”.
Amor que nem a distância separa
Apesar de não morarem juntos, Jefferson mantém uma relação próxima com William(foto: Arquivo Pessoal)
Apesar de não morarem juntos, Jefferson mantém uma relação próxima com William
(foto: Arquivo Pessoal)

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A paternidade é transformadora. As prioridades são reajustadas, as horas ao lado do filho se tornam preciosas e os desafios contribuem para o amadurecimento. O professor e administrador Jefferson Alcântara, 45, resume o que é ser pai em uma palavra: empatia. O administrador e a ex-mulher sonhavam em ser pais, mas devido à retirada do útero dela, a adoção passou a ser a única opção.

A espera pelo filho levou três anos. E a forma como William veio ao mundo já provava que ele seria um vencedor: o menino foi deixado em uma caixa de sapatos com poucos dias de vida. Após ser encontrado pelos bombeiros na cidade de Uberaba, onde Jefferson morava, foi levado ao lar de adoção.

“Recebemos uma ligação do orfanato dizendo que haviam encontrado esse menininho e nos perguntaram se queríamos conhecê-lo. Agendamos a entrevista, e fomos. Quando o vimos, sabíamos que era pra ser ele. É engraçado porque foi um sentimento instantâneo: eu olhei e soube”, conta.

Ao contrário da maioria dos pais que têm tempo para decorar o quarto do bebê e se preparar financeira e emocionalmente, o casal teve o prazo de uma semana para organizar a vida e o enxoval para a chegada de William. Jefferson define: “Um dia, acordei sendo apenas eu, e dormi sendo pai”.

Com as novas responsabilidades e o amor incondicional, os pais tiveram de encarar uma notícia desafiadora, William tinha uma isquemia do lado esquerdo do cérebro, o que dificultaria o processo motor, a fala, a aprendizagem, e poderia contribuir para que ele tivesse autismo. “Eu tinha acabado de perder o emprego e ainda estava na faculdade. O baque foi muito grande, mas foi nesse momento que mais cresci como pessoa e percebi que ser pai é se doar e se preocupar com a vida do filho antes da sua”, conta.

Após um ano desempregado, Jefferson conseguiu um novo trabalho e começou a investir no que podia para a melhora do filho. William fazia fisioterapia, foi colocado em uma escola especial e realizava atividades que ajudavam a desenvolver as habilidades de fala e relacionamento. Para a alegria dos pais, o menino, pouco a pouco, apresentou melhoras.

A separação do casal aconteceu quando William estava com sete anos. Foi um período difícil, por conta da mudança de Jefferson para Brasília, e William não entendia muito bem o que estava acontecendo. “Meu coração partia todas as vezes que ia visitá-lo e ele pedia para ficar.”

Para driblar a saudade e os 148km de distância entre Brasília e Anápolis, onde o filho reside com a mãe, Jefferson aproveita os fins de semana para estar com ele, viajar, jogar, e usa as redes sociais para manter o diálogo sempre em dia. “Mesmo ele tendo uma percepção diferente, busco reforçar que ele faz parte da minha vida. E, por mais que hoje eu tenha uma nova esposa e filha, ele continua sendo o meu filho e nada mudou entre nós.”
A materialização de um sonho
Os bancários Wilton e Daniel aumetaram a família com a adoção de dois irmãos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Os bancários Wilton e Daniel aumetaram a família com a adoção de dois irmãos
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Um ano e três meses depois de ter dado entrada no pedido de adoção, os bancários Wilton Antônio de Souza Júnior, 38 anos, e Daniel do Valle Silvestre, 44, completaram a família. Tornarem-se pais de dois meninos, irmãos biológicos, hoje com 6 e 10 anos.

Quando os meninos chamam “pai”, Wil e Daniel se viram em direção aos filhos, e o prazer e a naturalidade com que assumiram esse papel são mais uma prova de que “era para ser”, como define Wilton. “Ouvir a palavra pai foi a materialização de tudo que sempre sonhamos. Eles dizendo que queriam ser nossos filhos foi um momento incrível”, emociona-se, lembrando que os irmãos haviam recusado uma primeira família que queria adotá-los.

O casal conta que o momento em que a ficha da paternidade caiu de fato foi quando começaram a vivenciar os aspectos práticos da vida dos filhos. Na primeira vez em que levou os meninos para o colégio, Wil se sentiu completamente pai. “Meu pai morreu quando eu era jovem, e o momento de levar e buscar na escola sempre foi marcante para mim. Quando levei os meninos, percebi que minha vida tinha mudado para sempre.”

Daniel confessa que a procura por uma escola tirou seu sono e o fez perceber que, sim, ele era pai. “Foi difícil achar vaga. O ano letivo tinha começado e passei a noite em claro pensando onde eles estudariam. No dia seguinte, mesmo sem documentos, saímos para procurar.”

O desejo da paternidade sempre fez parte da vida de Wil. Filho único até os 13 anos, ele se sentia sozinho e dizia a si mesmo que teria muitos filhos para um fazer companhia ao outro. Porém, quando se descobriu homossexual, sentiu o sonho se afastar. “A sociedade me dizia que, como gay, não poderia ser pai, e internalizei isso. Levei um tempo para desconstruir esse conceito e me ver novamente como possível pai”, conta. Daniel recorda-se que nunca tinha pensado na possibilidade de ter filhos até ouvir o sonho do marido.

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Eles estavam juntos havia 11 anos quando ouviram a notícia de que um colega de trabalho, também homossexual, tinha adotado uma criança, e o desejo se reacendeu no coração de Wil. Os dois conversaram, e Daniel disse as palavras mágicas: “Se a gente for ter filhos, acho que está na hora”.

Em outubro de 2016, eles entregaram toda a documentação necessária. Quando receberam a ligação, em janeiro de 2017, Wil se emocionou ao sentir que aqueles eram seus filhos. O Dia dos Pais é uma dupla alegria. “Poder ser pai e viver isso na minha família homoafetiva é uma vitória, é amor, é família e estar junto.” Daniel completa: “Não sei de onde vem o desejo de ser pai, mas eu sou incapaz de imaginar minha vida sem meus filhos”.

Daniel e Wil têm a guarda definitiva dos filhos, porém aguardam a conclusão da destituição do poder familiar para finalizar a adoção. Como esse processo ainda não foi finalizado, o casal optou por não expor o rosto dos filhos nas fotos.
Preparação
Ao entrar para o grupo de apoio à adoção Aconchego, o casal passou por uma preparação para o processo. “Desconstrução é a palavra. Idealizamos muito e, no grupo, aprendemos que nenhum de nós é ideal — nem os pais nem as crianças. Ter crianças reais na nossa cabeça ajudou muito”, lembra Wil.

Daniel acrescenta que passar por esse processo foi fundamental na criação de vínculos. “Aprendemos a respeitá-los e a respeitar a história de vida deles antes de se tornarem nossos filhos.” O casal ressalta a importância do grupo de apoio. Em um primeiro momento, o casal queria adotar crianças mais velhas, mas, durante a convivência com garotos e garotas em abrigos, entraram em contato com a Vara da Infância e ampliaram ainda mais o perfil de idade. Também não fizeram distinção de raça ou gênero.

De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça, 46.175 pretendentes estão inscritos no Cadastro Nacional de Adoção. Desse número, 51,32% são indiferentes quanto à raça da criança e 64,94% não possuem exigência quanto ao sexo. Somente no Centro-Oeste, são mais de 3.500 pretendentes habilitados. Já o número de crianças inscritas é de 9.633, sendo 841 delas do Centro-Oeste. Mais de 49% são autodeclaradas pardas e 16,58%, negras — os perfis menos procurados pelos solicitantes que esperam na fila.
Três gerações de história
Pedro Rogério seguiu o exemplo do pai, Eudaldo Gomes de Almeida, e adotou Ana Beatriz
Pedro Rogério seguiu o exemplo do pai, Eudaldo Gomes de Almeida, e adotou Ana Beatriz

A adoção faz parte da história de Pedro Rogério de Queiroz Almeida, 35 anos. O professor de história foi adotado com apenas um ano e seis meses, porque a mãe não podia engravidar. “Desde sempre, os meus pais foram muito abertos e mantiveram um diálogo sincero. Então, para mim, não foi traumático. Muito pelo contrário.”

A mesma naturalidade ocorreu com o processo de adoção da filha, Ana Beatriz, hoje com 10 anos. Pedro e a mulher se sensibilizaram com o histórico da menina, filha biológica de uma pessoa próxima da família. “Por ser minha primeira filha, não tinha experiência com a paternidade. Uma das coisas que sempre me esforcei para ensiná-la foi a não ter preconceitos, não julgar ou fazer qualquer diferenciação entre as pessoas de crenças e aparências diferentes.”

Para o professor, ser pai é uma grande honra, vocação e chamado. “Busco fazer o melhor, não só o que ela quer, mas aquilo que acredito ser mais saudável. Mesmo com todas as dificuldades, é lindo ver um ser pequenininho se desenvolvendo.”

Um dos aspectos que diferem a criação de Ana Beatriz é a convivência com a mãe biológica. Desde que assumiu a guarda, Pedro nunca impediu que a filha mantivesse contato com a mãe sempre que solicitado. E assim como os pais estimulavam um diálogo aberto e honesto com ele, o professor cultiva essa cultura em família.

Entre as lições mais marcantes que aprendeu com a filha, uma sobressai. “A forma como a Bia age com naturalidade é um aprendizado muito grande para mim. Mais aprendi do que ensinei. O simples, para ela, já é suficiente. Sentar com a gente e assistir a um filme se torna o programa mais prazeroso do mundo”, emociona-se.

Hoje, Pedro e a esposa estão à espera da primeira filha biológica, e Bia está muito ansiosa para a chegada da irmã. Apesar disso, no coração do pai não existe qualquer diferença entre as duas experiências. “Se eu pudesse dar um conselho para homens e mulheres, diria para adotar. Existem crianças abandonadas que só querem uma família, só querem ser amadas. Para essa criança, é a chance de um renascer espiritual, de ser amparada, acolhida.”
Desafios da adoção
Além de um ato de amor, a adoção requer racionalidade. É preciso analisar e identificar quais são as reais motivações. Assim como acontece com os filhos biológicos, uma das partes do casal pode demonstrar vontade de adotar antes de outra. E a etapa de amadurecer emocionalmente para a paternidade faz total diferença para a chegada de uma criança.

Ainda na fase inicial do processo de adoção, é recomendado que os futuros pais frequentem grupos de apoio, que contribuem para tirar dúvidas, além de ser orientado corretamente e conseguir compartilhar a experiência com pessoas que estão passando pelo mesmo momento. “Ambos precisam estar alinhados, e o desejo para criar e amar uma criança deve ser mútuo”, orienta Maria da Penha Oliveira da Silva, psicóloga do grupo de apoio Aconchego.

E, por mais que seja difícil, é preciso segurar a ansiedade. Na fase de espera, é normal que pais idealizem não somente o perfil como também a forma como o pequeno pode se comportar. Mas lembre-se: a criança também cria expectativas.

“Existe uma idealização de felicidade da própria criança. Elas esperam que a vida nova não tenha obrigações, regras e afazeres. Os pais têm de estar bem conscientes e seguros, mostrar autoridade e manter um diálogo aberto. É preciso construir a confiança aos pouquinhos”, afirma a psicóloga Miriam Pondaag.

Uma das maiores dúvidas dos pais adotivos é sobre o momento “certo” de ser chamado de pai, assim como quando e com que frequência podem dizer eu te amo. A orientação das especialistas é que o afeto deve ser oferecido de maneira gradual e sem pressa. “O amor é uma construção constante e lenta, os pais precisam se lembrar disso. A criança não vai responder na mesma medida, mas, em seu tempo, vão começar a demonstrar carinho”, detalha Miriam.

“Reforce para a criança que ela está segura, e você estará lá por ela. No fundo, todo mundo só quer se sentir parte, amado, pertencente. Entender o ritmo e a sincronia ajuda a construir um relacionamento sólido”, completa Maria da Penha.

Nos casos de adoção tardia, quando as crianças têm mais memórias de sua história, elas podem querer conversar com os pais sobre o seu passado ou sentimentos. Nesses momentos, busque validar os sentimentos dela e aproveite para mostrar que agora ela está segura e amada.

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